quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Quem não andou em promiscuidade com seus fantasmas e abismos está condenado a viver em sonho coletivo, capturado pelo cotidiano jamais pressentirá a estranheza da vida, pois o Absurdo é a faísca do atrito entre a alteridade de dois mundos: apenas se afogando nas próprias correntezas se poderá olhar para os outros com espanto, admirando-se de existir e de permanecer existindo, no entretempo de duas noites. É preciso se deixar levar...e que as mãos próximas sirvam de carinho...afago para a pele...que passa: nunca de galho a que se agarre. É preciso ser Ofélia: se ofelizar.
Curitiba não tem mar, razão pela qual me flagro constantemente frente à piscininha retangular da praça do Paço observando a água suja jorrar da fonte d'água. Barulho bom.
Contemplação provinciana.
Cidade tímida, sem céu, sem mar, sem estrelas, encerrada em si mesma.

"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco."
Quando me deparo com o avanço triunfante do califado evangélico, lembro-me do romance de Houellebecq sobre uma França que finalmente elege um presidente islâmico (nisso estamos mais adiantados), bem como desse trecho em que Lacan dá à existência efêmera da psicanálise ares de tragédia grega - espremida, como diz Vernant, entre o passado mítico e o "triunfo da filosofia", mas em nosso caso entre a Idade Média e o Califado Universal do Reino de Deus:

"Falei há pouco do real. O real, por pouco que a ciência aí se meta, vai se estender, e a religião terá então muito mais razões ainda para apaziguar os corações. A ciência é novidade, e introduzirá um monte de coisas pertubadoras na vida de todos. Ora, a religião, sobretudo a verdadeira, tem recursos de que sequer se suspeita. Por ora, basta ver como ela fervilha. É absolutamente fabuloso.
São capazes de dar um sentido realmente a qualquer coisa. Um sentido à vida humana, por exemplo. São formados nisso. Desde o começo, tudo o que é religião consiste em dar um sentido às coisas que outrora eram as coisas naturais. Não é porque as coisas vão se tornar menos naturais, graças ao real, que se vai parar de secretar o sentido. E a religião vai dar um sentido às experiências mais curiosas, aquelas pelas quais os próprios cientistas começam a sentir uma ponta de angústia. A religião vai encontrar para isso sentidos truculentos. É só ver o andar da carruagem, como eles estão se atualizando."