segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018



"Pela Janela", filme de estréia de Caroline Leone, é bonito e cativante.

A personagem operária moldada pela fábrica ao se ver desempregada não consegue chorar, como uma Macabéa desabituada de emoções pela rotina  'fábrica-trânsito-sono', parece não ter palavras pra expressar seu abandono.
Viaja com um irmão preocupado com seu desamparo. Nas cataratas, primeira parada, é a natureza que parece chorar e, a beira do abismo e do incomensurável, é esta que lhe possibilita começar a sentir. Um sentimento cheio de temor e timidez, cuja relutância se torna clara em um diálogo adiante:
"Gosta de Buenos Aires? -Não sei, eu tenho medo da volta".


O medo de sentir perpassa tudo. Após uma existência ressequida no chão da fábrica, abandonada e sozinha, o que teria para sentir senão a dor? E como lutar sozinha contra a engrenagem indiferente do mundo?
E o filme se passa inconcluso.
Embora repleto de passagens sutis que tão bem constroem os personagens, segue um tanto monótono, como se houvesse discrição em extrair do sofrimento alheio matéria-prima para a própria inteligência cúmplice com o espectador.
Impossível não sair triste do cinema.

Minto. Na sala de poucas pessoas em Curitiba, a maioria saiu nos primeiros 15 minutos. Não pareciam tristes, antes decepcionadas por não terem o entretenimento prometido. O que faz pensar que a falta de sensibilidade estética provinciana esconde outra maior: a indiferença brutal e violenta de uma classe média igualmente incapaz de sentir e olhar no espelho o mundo ao seu redor.

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