(comunicação apresentada na Central de Atendimento do Banco do Brasil)
O termo “sociedade vitoriana” designa o período que vai dos anos 30 do século XIX até o término do mesmo século, período marcado por uma moral puritana e exigente, sobretudo para as mulheres.
Para se ter ideia do grau de puritanismo sexual, diz-se que a Rainha Vitória exigiu que as toalhas de mesa de seu palácio cobrissem as pernas das mesas até o chão, pois os homens poderiam associar as pernas descobertas das mesas às pernas femininas.
Não à toa, os pacientes de Freud chegavam com sintomas que iam da culpa obsessiva à somatizações histéricas e, quando investigados, chegava-se a origem de ideias tidas como imorais e por isso recalcadas da consciência dos pacientes. Os ideais elevados e internalizados (internalização que formará o que Freud chamará de superego) da sociedade de então não permitia a convivência com tais pensamentos, que se tornavam então inconscientes, mas não desapareciam por completo, gerando seus efeitos. O que Freud fez foi ouvir estes pacientes que eram descartados pela medicina no momento em que não encontravam causas orgânicas para as somatizações, e dar aos pacientes um espaço de fala livre de julgamentos. Com o tempo, os pacientes podiam elaborar seus desejos, aceitá-los, e dar a eles outros encaminhamentos que não a repressão exigida pela sociedade.
Bom, essa era a época de Freud, de lá para cá muita coisa mudou.
Mas nem tanto.
Dando um salto de quase 100 anos, uma das formas de se pensar uma mudança daquela sociedade para a contemporânea seria analisar o que alguns autores chamam de passagem da sociedade da produção para a sociedade do consumo. Se em uma sociedade de moral protestante a ênfase recai sobre o trabalho, a resignação, a repressão do desejo, o adiamento do prazer, a economia dos recursos, quer dizer, “trabalhe para ficar rico, não gaste o que ganhar, pois sua riqueza é prova de que você está no caminho certo e Deus está ajudando”; na sociedade contemporânea a ênfase recai sobre o consumo, o marketing produzindo uma injunção de gozo que ordena que você compre: objetos, viagens, experiências. E é preciso comprar para participar da sociedade, senão se fica de fora.
Se na sociedade vitoriana tínhamos um superego que reprimia o gozo, no capitalismo tardio temos um superego que exige que se goze.
Mas também é possível analisar esta mudança de época a partir do trabalho, pois o discurso sobre o trabalho igualmente mudou.
Para um marxista o valor do trabalho é quantificado pelo tempo em que um trabalhador fornece de sua força de trabalho para um empregador, proprietário dos meios de produção, produzindo uma riqueza que, em parte lhe será devolvida como salário e em parte será expropriado pelo dono do capital na forma de lucro.
Mas no fim dos anos 70, Foucault (em O Nascimento da Biopolítica) analisa como economistas da Universidade de Chicago, em especial Theodor Schultz, que havia publicado em 1971 um livro chamado Investimento em Capital Humano, passam a ver o trabalho sob outro enfoque.
Trata-se a partir daí de analisar a geração de riquezas a partir do trabalho sob formas bem mais complexas que a simples análise quantitativa do tempo, visto que a partir de então toda a personalidade e atributos físicos do empregado, bem como o conhecimento e experiência de vida e inúmeros fatores qualitativos passam a ser considerados como geradores de riqueza em potencial.
O trabalhador deixa de ser visto como alguém que vende força de trabalho e passa a ser visto, ele mesmo, como um capital que produz rendimentos.
Para a teoria do capital humano o salário é uma renda. E o que é uma renda? Uma renda é o rendimento de um capital. Qual o capital do qual o salário é uma renda? O próprio homem, enquanto capital humano, no conjunto de seus atributos físicos e psicológicos, onde se faz investimentos dos mais diversos tipos: educacionais, afetivos, etc.
Todo homem é um empresário, um empresário de si mesmo, o que é bem representado pelo título da revista brasileira: Você S/A.
É uma forma completamente diferente de ver o mundo. Você se torna responsável pelo seu sucesso e se está desempregado é porque não investiu o suficiente em si. Não há um Outro para quem reclamar. Isto junto com a diminuição dos laços familiares, das organizações sindicais, das comunidades locais, etc., gera uma sociedade de indivíduos solitários, concorrentes e unicamente responsáveis pelo próprio sucesso ou fracasso.
Um outro aspecto, que é correlato e consequência do primeiro, é que, cada vez mais, passa-se a ser induzido a pensar em termos de administração da vida pessoal. Investe-se nos estudos pensado no retorno sobre o investimento, administra-se o tempo, investe-se em relações amorosas. O vocabulário empresarial vai entrando em todos os âmbitos da vida e o objetivo comum é sempre a maximização dos resultados: dos rendimentos, da satisfação, do bem estar, da felicidade, do consumo. Inclusive tornar-se um consumidor ideal é parte importante porque projeta uma imagem de sucesso, e muitos coachs dizem que possuindo uma imagem de sucesso, o sucesso virá em consequência. Então mesmo o consumo vira uma espécie de investimento na empresa que se é.
Esse é o Ideal contemporâneo. O lugar do Ideal, como existente na sociedade vitoriana, não deixou de existir. Embora o que o ideal contemporâneo represente seja o sucesso, a felicidade e a alegria, ele continua igualmente exigente para o indivíduo que o internaliza. De modo que vemos hoje surgir um tipo inimaginável em tempos idos, aquela pessoa que se culpa por não ser feliz, por não ter tido sucesso, por ter ficado no meio do caminho.
Assim como na época da repressão os deveres se impunham tão rápido aos indivíduos que não havia tempo para que verbalizassem para si mesmos os seus desejos, na sociedade contemporânea os ideais se colocam de modo imediato nas redes sociais, nas capas de revistas, na expectativa de que se entre na melhor faculdade, no melhor emprego e na melhor promoção, o que faz com que muitos indivíduos que vão sendo levados por um caminho aparentemente virtuoso se questionem em dado momento se era mesmo isto o que desejavam. Ou, muitos dos que se vêem impossibilitados de seguir estes caminhos, caem deprimidos e sem desejos. Como não se reconhecem no cardápio dos desejos oferecidos, enxergam-se como pessoas que já não desejam nada. Se as neuroses de fundo moral eram os principais sintomas da sociedade vitoriana, a depressão vai se desenhando como a grande doença nervosa desse início de século.
Na época vitoriana os psicotrópicos não eram tão eficientes, se o fossem, no entanto, poderiam até curar as paralisias histéricas, mas não criariam o espaço de fala e de tempo que a psicanálise propiciou para que as histéricas de então pudessem começar a enunciar seus desejos. Sem isto, não se teria dado a elas a oportunidade de reinventarem suas vidas nem teria sido possível escutar a mensagem cifrada de seus sintomas, abrindo caminho, inclusive, para que a insatisfação feminina de então se verbalizasse publicamente em forma de reivindicações por novas formas de vida.
Penso que o mesmo vale para nossos dias. Mesmo considerando que a psicofarmacologia oferece antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor e uma série de substâncias mais sofisticadas que as do séc. XIX e que ajudam a silenciar o sofrimento gerado por nossos modos de vida atuais, permitindo que o indivíduo continue de alguma forma em seu caminho, ainda assim, o tratamento analítico oferece um espaço (arriscado, claro) para aqueles que se perguntam o que está sendo feito de sua vida.
Ainda que não se mude o mundo, pode-se mudar sua relação com ele.
(por Tiago Macedo)


